terça-feira, janeiro 14, 2014

Resenha: Garota, Interrompida

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"As pessoas me perguntam: como você foi parar lá? O que querem saber, na verdade, é se existe alguma possibilidade de também acabarem lá. Não sei responder à verdadeira pergunta. Só posso dizer: é fácil." (pág. 11, primeiras linhas)
Este é aquele tipo de livro que precisamos estar preparados antes de ler. Que vai te fazer refletir, mexer com conceitos e jogar na cara do leitor alguns preconceitos bem comuns. Tudo isso em uma história real, relatando vivências da própria escritora que passou dois anos em um hospício. Como poderia ser ruim?

É 1967 e o mundo está passando por várias mudanças. Susanna é uma garota de 18 anos que tem seus próprios problemas para se preocupar. Ela anda um pouco depressiva e tem a mania de machucar seus pulsos, por isso seu psicólogo decide interná-la no Hospital McLean, onde ela conhece várias outras meninas na mesma situação. Ou em alguma situação parecida. 

Lisa, Daisy, Georgina, Polly, garotas jovens e cheias de problemas. Cada uma com sua doença, com diferentes históricos de vida, formas de encarar o mundo e sua loucura. Vidas interrompidas devido à doença. Tudo muito puro, trágico e real como só uma narrativa verdadeira pode ser. E por mais que elas errem, nos apegamos a essas meninas e constantemente nos pegamos tentando salvá-las desse mundo.

É real, é doloroso, é confuso. Nunca pensei em ler um livro escrito por alguém que já foi internada em um hospício, e isso só mostra um pedaço do preconceito que temos com essas pessoas. Todas as confusões que passam pela cabeça da autora se tornam nossas confusões. E ela explica para o leitor o que é a loucura, o que ela vê e sente, como ninguém fora dessa situação conseguiria. Muitas vezes até mesmo se questiona se está realmente louca, e faz isso com tanta convicção que até nós começamos a duvidar.

Contudo, vale ressaltar que este não é um livro com uma narrativa única. Cada capítulo é como uma pequena história, algum acontecimento importante durante a estada no hospital. No início não achei isso muito bom pois demora para nos conectarmos com a história, mas no momento em que a conexão acontece o livro se torna maravilhoso. No momento em que conseguimos abrir a nossa mente para (tentar) entender a delas é que realmente começamos a ler.

Existe uma famosa adaptação cinematográfica do livro, lançada em 1999. Apesar de muito famoso e elogiado, só vi o filme após esta leitura e acabei preferindo o livro. Algumas das melhores reflexões da autora não foram levadas para as telas e, para variar, algumas cenas foram modificadas. Contudo, o que mais me surpreende é o tempo que levou para alguma editora trazer a história para cá. Finalmente isso aconteceu. O trabalho de diagramação está bom, e não lembro de ter visto erros. Na capa temos algumas coisas escritas em rosa (com um pequeno relevo) que não dá para ver na foto. Não sei se era a intenção, mas me pareceu uma metáfora interessante. Quem olha rápido e superficialmente vê apenas uma capa rosa. Quem olha mais a fundo, vê tudo o que ela "diz". Mais um menos como uma pessoa. Será que viajei ou mais alguém me acompanhou no raciocínio?

Por mais que tenha elogiado, sei que não são muitos que irão amar este livro. Não é um livro feliz, não tem aventura ou suspense, nem uma história linear. É o tipo de livro para quem realmente gosta de algo verdadeiro, reflexivo, que nos faz estranhar que exista uma realidade tão diferente da nossa, mas ao mesmo tempo entendendo que ela pode estar do nosso lado. É para quem quer conhecer essa outra visão, tentar entender o porquê disso e porque não chegamos no mesmo ponto de loucura dos pacientes. Ou será que ainda podemos chegar?
"As que se comportam "normalmente" suscitam uma pergunta incômoda: "Qual é a diferença entre aquela pessoa e eu?", que leva à questão: "O que me impede de estar no hospício?"." (pág. 143)
Excelente!
Mais informações:
Garota, Interrompida 
Título original: Girl, Interrupted
Autora: Susanna Kaysen
Editora: Única (Site | Twitter | Facebook)
Páginas: 190
Links: Skoob | Goodreads

4 comentários:

  1. ainda não li o livro, mas parece ser ótimo! me interesso bastante por este tipo de tema (estranho?)
    não sabia que existia uma adaptação dele :O
    não imaginava que o livro fosse tão bom assim *--*
    fiquei bem curiosa :D

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  2. Hey! O nome do livro me chamou atenção; e agora que sei o conteúdo, puts, me surpreendi. Como você disse, é um livro que 'precisamos estar preparados para ler'. Li Feia, da Constance Briscoe (recomendo, rs), e é mais ou menos desse jeito, não digo pelo 'enredo', mas que se trata de uma história não-feliz e é uma história real. E sei lá, aquele livro me deu um choque, não por ser ruim; isso não é, mas por ser tão real. Sei que ao ler, fiquei com uma sensação estranha.
    Bateu curiosidade, e sei que se eu ler esse livro, vou ficar com a mesma sensação estranha que tive ao ler Feia.
    Vou pesquisar sobre o filme também ^-^ E tô super curiosa pra esse lance da capa (msm você dizendo que não dá pra ver na foto, eu tentei ver algo na foto, rsçrsçrs)
    Kissus
    www.penseicliquei.blogspot.com

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  3. Bom, acho que eu não estou preparada para uma leitura dessas, ainda. Eu prefiro histórias lineares mesmo, de preferência romances fofos, gosto de sonhar quando leio sabe, e não de "encarar a realidade". Eu sei que isso é bem necessário as vezes, e é bom entender como as outras pessoas se sentem, porque apenas assim conseguimos ter alguma afeição por ela, entendendo seu lado.
    Quando vi a capa rosa, julguei e achei que era algo mais "menininha" e não tem nada a ver, é algo bem mais "chocante", digamos assim.
    Bateu um tantinho de curiosidade para conhecer esse lado, mas não é um livro que eu queira muito ou que tenha entrado para minha lista de desejos.
    Muito boa a resenha, Tami *-* Beijos.

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  4. Noossa Tami achei interessante o fato do livro ter sido escrito por um pessoa que viveu dois anos em um hospício e realmente acredito que tem que estar bem preparado para ler esse livro. Uma história bem reflexiva... Gosto muito de livros assim e estou com vontade de ler esse já faz um bom tempo! Beijos!

    http://meudiariojk.blogspot.com.br

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